Sucata metálica redesenha rotas enquanto insumos brasileiros cedem

Resumo executivo

A alta do alumínio secundário na China coincide com mudanças regulatórias que podem redirecionar a sucata europeia.

Na China, custos regulatórios mais altos sustentaram o alumínio secundário e elevaram a sucata triturada importada, mesmo com recuo do alumínio primário. Em paralelo, a proposta europeia de regras para remessas de resíduos ameaça alterar, a partir de 2027, o acesso asiático a parte da sucata metálica da União Europeia.

No Brasil, uma venda de 50.000 mt de ferro-gusa básico para novembro foi fechada a US$ 442/mt FOB sul do Brasil, em um mercado que recuou levemente. Na Europa, a tarifa zero da EAEU para sucata de titânio formaliza uma nova fonte de competição por um material já apertado.

Alumínio secundário ganha suporte

Custos de conformidade elevam o ADC12 chinês e sustentam a sucata triturada importada.

O ADC12, liga de alumínio secundário usada sobretudo em fundição sob pressão, avançou CNY 150/mt na semana para média de CNY 24.350/mt, enquanto o A00, referência de alumínio primário, caiu CNY 380/mt até 17 de setembro. A divergência indica pressão de custo específica sobre a cadeia reciclada, atribuída ao aperto das exigências de conformidade.

A sucata triturada importada acompanhou: subiu CNY 100/mt, para CNY 21.470/mt no porto de Ningbo e CNY 21.520/mt em Tianjin, com impostos incluídos. Para fundições e processadores chineses, o custo de reposição aumenta; para fornecedores externos de material triturado, o sinal é favorável, mas o prêmio dependerá de o ADC12 continuar sustentado diante do alumínio primário mais fraco.

Europa pode fechar rotas asiáticas

O rascunho europeu ameaça restringir o recebimento direto de sucata metálica por Índia, Tailândia e Malásia.

A lista preliminar da União Europeia para o regime revisado de remessas de resíduos pode impedir que Índia, Tailândia e Malásia recebam diretamente certos fluxos não perigosos de resíduos metálicos a partir de 21 de maio de 2027. A Comissão Europeia deve publicar a lista oficial até 21 de novembro de 2026, e o texto ainda pode mudar.

Caso seja mantida, a medida tende a reorientar parte da sucata europeia de cobre para Turquia, Japão e Coreia do Sul, ou a reter material na Europa para triagem, pré-processamento e fusão. A Índia, por sua vez, poderá buscar mais carga nos Estados Unidos, Oriente Médio e América Latina. Para exportadores brasileiros, não há alteração imediata de fluxo, mas a proposta cria uma possível disputa futura por cargas asiáticas e merece acompanhamento antes da definição oficial.

Titânio europeu enfrenta mais concorrência

Tarifa zero da EAEU reforça a procura por sucata de titânio escassa na Europa.

A EAEU restabeleceu tarifa de importação zero para resíduos e sucata de titânio até 31 de agosto de 2028, substituindo a alíquota anterior de 5%. Segundo a Fastmarkets, compradores do bloco já ampliaram a competição pelo material europeu, cuja disponibilidade permanece apertada.

As aparas 90/6/4 ficaram estáveis em US$ 1,10–1,22/lb CIF nos principais portos europeus, e as aparas não processadas em US$ 1,00–1,15/lb CIF Europa. A estabilidade de preço não elimina o aperto físico: a mudança tarifária fortalece o poder de compra de importadores da EAEU e pode restringir a oferta disponível a recicladores europeus.

Ferro-gusa brasileiro recua levemente

Uma venda para novembro a US$ 442/mt FOB sul do Brasil confirma ajuste moderado no mercado de gusa básico.

Foi reportada uma venda confirmada de 50.000 mt de ferro-gusa básico a US$ 442/mt FOB sul do Brasil, com embarque previsto para novembro. A referência semanal recuou ligeiramente, e o negócio oferece uma indicação concreta de que os compradores ainda não estão aceitando valores mais altos nessa base de exportação.

O ferro-gusa não é sucata, mas compete como insumo metálico na rota siderúrgica. Para produtores e traders brasileiros, a correção limita a capacidade de testar aumentos na exportação; as evidências disponíveis não permitem concluir, porém, que isso já tenha alterado a formação de preços da sucata ferrosa doméstica.

O que isso significa para o mercado brasileiro?

A oportunidade em alumínio reciclado convive com o risco de concorrência maior por destinos asiáticos.

Quem vende sucata de alumínio processada deve acompanhar a sustentação do ADC12 e das cotações portuárias chinesas, porque elas apontam maior custo de reposição para fundições locais, sem equivaler automaticamente a uma alta generalizada em todas as qualidades. A possível restrição europeia, se confirmada, pode ampliar a relevância de origens como a América Latina para compradores indianos.

No ferro-gusa, o negócio FOB do Sul do Brasil sinaliza mercado exportador moderadamente mais fraco. Para operadores de sucata, isso recomenda separar a leitura do gusa da negociação física local: ainda não há evidência de repasse direto para a sucata brasileira.

Mais análises

Ver todas